Sexo, reprodução, natureza e cultura- Uma abordagem do Dr. J.Angelo Gaiarsa

Dr José Angelo Gaiarsa era católico até os 25 anos e se questionava com o pecado, até que ultrapassou as contradições religiosas. Aprofundou o trabalho de Wilhelm Reich sobre estruturas de caráter e couraças e sempre avançou sem compromissos com o passado. Chegou à filosofia tântrica e se preocupou com a educação das crianças. Num tempo onde a sociedade discute reduzir a maioridade penal para os dezesseis anos, algumas mentes debatem se o remédio não será pior que a doença. Além disso, porque evitamos abordar a questão da reprodutividade humana, em especial nas classes excluídas, de onde vêm a massa dos adolescentes estatisticamente mais frequentes nas ocorrências criminais de latrocínio e drogas? É que nossa cultura não tem uma resposta no passado nem viável no presente, que não seja repressão facista e religiosa ou eugenismo nazista. Dr. Angelo Gaiarsa redescobriu o tantrismo e o reformulou em termos de nossa cultura, além de ter coragem de por em questão a reprodutividade e a superpopulação tangida no capitalismo.
No livro Sexo- tudo que ninguém fala sobre o tema, ED ÁGORA, 2005,escreve Gaiarsa:
POR QUE O ORGASMO?
Quando a natureza quer ou precisa, ela faz os animais realizarem o necessário mesmo sem recompensa e às vezes até com sacrifícios. O caso das aranhas e louva-deus é paradigmático. O prazer existe para indicar o caminho do que é louvável à vida. A dor, do que a desfavorece.
O êxtase orgástico divino dos tântricos não é um prêmio gratuito da natureza: é a consequência de um entendimento perfeito da pessoa consigo mesma, como o próximo e como os próximos.
É o sinal definitivo de que ela - a natureza- alcançou seu objetivo: o amor universal.
Então o planeta Gaia será o paraíso.
Poderá ser. Se nos dispusermos a aprender.
Se o macho diabólico for vencido: até 1980 os chineses mataram mais de um milhão de tibetanos e arrasaram mais de seiscentos templos budistas...
O macho diabólico- dando nome aos bois- é o mais do que o rendoso complexo militar-industrial, o único que se beneficia diretamente com a guerra e o maior sustentáculo da economia capitalista onde quer que ela exista.
Gametas demais, cuidado de menos
Você lembra o que é um gameta? É uma célula reprodutora, um óvulo ou um espermatozóide.
A natureza os produz em número astronômico. Grãos de pólen, por exemplo. Os serem marinhos também produzem aos milhões em certas épocas. A imensa maioria deles será alimento para outras espécies- ou até para a mesma que os produziu! É um desperdício espantoso de elementos vivos mais do que complexos, todos como o potencial de gerar novas vidas! É a sobrevivência garantida pela estatística!, pelo número espantoso de possibilidades- e com total desprezo pelos indivíduos.
A natureza pode estar experimentando um esquema mais econômico e, ao mesmo tempo, mais rico: qualidade e não quantidade. Os tântricos começaram a abrir caminho: prazer sem ejaculação, cultivo de relações pessoais profundamente prazenteiras, mas estéreis.
Vantagem: se fôssemos em menor número, se não nos multiplicássemos como ratos e baratas- perdoem a comparação- cada criança poderia ter toda a atenção necessária para transformar um ser humano em um ser sobre-humano! Isto é, capaz de usar todos os seus cem bilhões de neurônios e o número infinito de conexões possíveis entre eles. Não mais uma mãe para um filho, mas uma comunidade para cada criança...
Cada criança um pequeno dalai-lama...
Continuando, no livro O Ritual da Comunhão- ensaios sobre a sexualidade, ED. GENTE 1995, Dr José Angelo Gaiarsa, destaca alguma de suas frases sintéticas marcantes:
Os homens complicam, enfeiam ou degradam o momento sexual a fim de fugir, de não perceber, de esconder ou esconder-se diante do divino e do inocente que se contém nesta hora.
Porque o mistério da essência humana é definitivamente um vazio. No centro da cebola não ha nada. Eu, eu mesmo, meu autêntico eu, minha essência mais pura, sou apenas uma soma de possibilidade ilimitadas de criação.
O prazer e a alegria residem na relação entre homem e mulher. Quanto mais ampla e profunda a relação, maiores o prazer e a alegria.
Quanto mais um ato é a afirmação de si, mais ele nega o outro.
Quanto menor a necessidade de afirmação de si, maior a comunhão. mais profundo o contato e mais densa a comunicação.
De cada quatro crianças que nascem neste instante, duas estão fatalmente condenadas a morrer de fome e a terceira morrerá também, ainda que mais lentamente, cronicamente faminta.
Aquele ato capaz de gerar uma vida humana, quando multiplicado por grandes números, pode gerar suicídio da espécie.
O homem se faz na medida exata em que deixa de ser natural ou na medida exata em que deixa de ser animal- tanto faz.
Há uma cultura humana na mesma medida em que o homem se afasta de seus esquemas primários de comportamento, suas formas de reação biológicas, ditas reflexas ou instintivas.
Mais do que racional, o homem é, quero crer, um animal capaz de consciência e de escolha.
Ao se tornar incerto, o homem se fez humano.
Precisamos nos situar humanamente ante a reprodução; precisamos decidir sobre o que fazer com ela.
Ao procriar indiscriminadamente eu prejudico todos os próximos, remotamente toda a humanidade, diretamente o filho nascido deste ato e, indiretamente, a mim mesmo.
A sociedade atua demais onde não é tocada e não atua sobre aquilo que mais lhe importa. A vida sexual de cada um pouco e nada tem a ver com os demais; mas os filhos de qualquer um interessam a todos. A sociedade burra e suicida regula rigidamente a sexualidade e não regula a procriação.
Seria preciso ultrapassar todo o aprendizado social a fim de reencontrar, bem no fundo de nós mesmos, a eterna criança, que é nossa essência. Este encontro é ao mesmo tempo um encontro conosco mesmos e uma comunhão com o universo, no momento em que a percepção de nós mesmos se confunde com a figura real e com a posição que ocupamos no mundo.
O indivíduo vigilante, desejoso de bem gozar da sexualidade, deve ser bem controlado! Aquele que se precipita avidamente para o orgasmo é certamente um tolo que não sabe experimentar, não sabe viver nem saborear as coisas. No entanto, se, menos tolo, se detiver, prolongando a ação, então descobrirá, pouco a pouco, milhares de movimentos, sensações, posições e possibilidades nesta ação tida, por tantos homens, como tão simples, ou tão simplória; tida por tantas mulheres, como sendo "sempre a mesma coisa".
Mas ao buscar um prazer mais refinado, o indivíduo está adquirindo, no mesmo ato, uma concentração mais fina e uma coordenação mais apurada; ele está educando a sensibilidade e o controle. Outrossim, ao aprender, passo a passo, a abandonar-se cada vez mais, o indivíduo está, pouco a pouco, aprendendo a mágica das mágicas: está aprendendo a desfazer-se, a dissolver-se, a desmanchar-se- a morrer...
Nenhum comentário:
Postar um comentário