FIM DE SEMANA COM JUREMA NO SÍTIO DO SONHAR (Vicente Medrano)
Nesta quarta sessão decidi tomar Jurema num ambiente natural mais amplo, sem preparações especiais e durante o dia e os afazeres normais, observando assim as mudanças sutis de percepção. Havíamos preparado por horas seguidas cerca de 800 mililitros do decocção de Jurema e no Sítio do Sonhar é o lugar ideal sem vizinhança perturbada pra tal intenção. Queria perceber melhor o processo de transição com a ação da DMT-dimetil-triptamina no cérebro, onde agiria, e atentar melhor na intensificação da percepção.
Sábado de trabalho sob inspiração de Jurema
A questão da construção dos tanques de peixes no sítio está na minha preocupação atual, eu penava pra entender os problemas da questão e o que o rapaz encarregado estava afinal aprontando, seja acertando seja errando, e enfim, suas intenções. Então percorri a pequena área dos tanques observando os detalhes e me observando as reações e pensamentos. Então iniciei tomando cerca de meia xícara de arruda síria, sendo que esta já inicia uma modulação sutil da percepção devido a inibição da enzima Monoamino-oxidase organismo, permitindo assim que a DMT endógena entre em ação. Cerca de quarenta minutos após é que me lembrei de Jurema, por volta das 16 horas e tanto que medi um dedo do líquido, temeroso da intensidade da bebida para o estômago e mente. O rebote de náusea foi imediato, tremi o corpo com a chegada do líquido no estômago, mas aos goles continuei andando nas imediações dos tanques, observando em mim mesmo a diferença de nível nas percepções e avaliações que fazia, se comparado a antes de beber o vegetal. Realmente ao poucos comecei a perceber mais detalhes do trabalho e as intenções do rapaz, mesmo coisas que não vira antes e coisas que aparentemente ele se enganara. Estava sentindo que talvez fosse hora de encarar um possível malogro em seguir adiante na construção dos tanques e minha/nossa relação de interesses com o encarregado, a dialética entre necessidade e princípios. As mudanças de atenção se acentuavam, caminhava com a caneca média esmaltada branca com motivos floridos, e me surpreendi com a insistência em lembrar o apelido que dão a Jurema/Oaska de "chá-das-almas", já que parecia mesmo perceber/sentir presenças vaporosas nas imediações dos tanques e na água. Constatei adiante que a chuva havia rompido a parte da barragem e tentei imaginar o quanto isso influenciara os demais tanques pelo que estava vendo. Minha audição falha em razão da surdez de infância do ouvido esquerdo e chiado até na audição direita ( erro que cometi com gerador eletromagnético!) me alertou de movimentação nas cercanias, ficando na expectativa de que seria talvez o rapaz encarregado que decidira vir até o sítio, mas me enganara, pois era o vizinho com sua moto que chegara. Temi a situação que me encontrava, mas busquei manter a naturalidade, e ele chegou perguntando por brincadeira se já estava com a vara de pescar, pois eu carregava um galho longo pra me apoiar nos montes de terra. Conversávamos sobre os tanques e eu percebia em mim uma leveza de espírito suficiente pra conversar sem defesas com o vizinho, dando a impressão que minha mente estava leve e livre do meu corpo. Como resultado, o vizinho me passou alguns dados sobre os tanques e até combinamos na saída que ele desse conta do portão que eu precisaria colocar na frente, mas estranhou eu gastar boa soma em cercar de alambrado e malhas a parte central do sítio, afinal, raciocinou que ladrões visam ´patrimônio´.... e cheguei a ter mesmo dúvida pois o projeto dos tanques estava ameaçado, porém segurança é mais importante que racionalismos avaliadores. Esta dúvida me apareceu algumas vezes no decorrer da noite com os efeitos de Jurema, entremeio a dúvidas com as intenções do encarregado e sua jovem mulher que tivera parto recente com complicações na amamentação, coisa que eu e minha companheira tivemos envolvimento de ajuda.
II
No mundo dos monopólios da vida-mercadoria, cada qual é chamado a nadar pra libertação, ou perecer nas garras do leviatã sem choro nem vela...fazer de sua vida um espelho da espiral da existência e fazer valer a pena ter nascido...ssss. Resta-nos mover pela realidade diária como uma realidade moldada pela força da convenção e do arbítrio, e preservar um tanto de liberdade de percepção e criatividade que alcançamos na percepção alterada pela DMT-Jurema.
Decidi continuar bebendo da Jurema até o momento que fosse positivo ao meu organismo e intenção de Conhecimento. Enfim, um segundo dedo e terceiro dedo de medida se sucedeu, mas não cheguei ao fim desta terceira dose. Já na segunda dose, enquanto acendia outra vela no cômodo do fogão a lenha, me assustei com uma rãzinha nas proximidades, atraída pela luz. Meus lapsos de sequência racional dos fatos foram aumentando, e a primeira constatação de ação da DMT é o alívio do fardo imenso da corrente de tempo e do passado, pois agora tudo é agora e atenção-conhecimento. Ao mesmo tempo aumenta a necessidade de deitar e dormir, bocejos enfim anunciam o aprofundamento da DMT, uma premente necessidade de dormir como acontece na primeira infância, mas na verdade significa sonhar e/ou delirar. Busquei assim me manter em movimento atento no agora de meu organismo e corpo no espaço, e afinal compreendi que precisava me proteger da umidade do chão de terra batida, pois já sentia friagem no nervo ciático e nas virilhas, pois que eu me sinto bastante sensibilizado com o efeito da Jurema. A escolha das achas de lenha foi um trabalho meticuloso, pois sob efeito da Jurema a atenção fica focada e não temos objetividade, dificultando eliminar dados secundários do campo de percepção. Percebia tudo isso e tomava devido cuidado com surpresas.
![]() |
| A meticulosa e prolongada decocção de Jurema |
Sentando-me num banco perto da vela acesa, os pés suspensos sobre a lenha, notei que se avizinhava uma onda de alteração da percepção, como que provinda de fora mas enchendo-me o cérebro e envolvendo o corpo num tanque de emanações e amortecimento pros objetos do mundo. Então surgiam complexos arabescos no campo de visão ao qual eu tentava me adaptar. Queria sentir meu corpo se movendo nesta realidade alterada, o que podia afetar em vários sentidos meu organismo. Queria sentir a transição das barreiras entre a realidade consensual e a singular, e nesse momento sabia que as duas realidades tinham idêntica legitimidade, percebendo a realidade consensual tão ´delirante´quanto a Singular sob efeito da DMT... apenas que temos o condicionamento que lidamos com realidades idênticas... A lua estava entre nuvens e não queria me expor a sua luz e a noite úmida. Os receios de sair ao lado de fora surgiram mas tive de sair e urinar, e dei alguma volta com a caneca de metal esmaltada na mão enquanto tentava observar o canteiro de horta. Já na área externa da casa de madeira, via o espaço do terreno adiante como um mar de ondulações e eu uma gota de ondulação me protegendo das vagas desse mar que ameaçava se tornar oceano em engolindo, também os ruídos da noite e bichos do brejo. Tudo ameaça virar oceano e nos puxar pra um contato seja de qual nível for. Temos dificuldade de nos mover nesse nível de atenção pois tendemos nos esquecer das necessidades do frágil e delicado corpo orgânico que somos, e não pedras minerais. Aos poucos senti o perigo da friagem nos pés, na coluna, nervos e ouvidos que chiavam, e não conseguia me concentrar em resolver dentro da miragem estes distúrbios. Decidi entrar em casa, onde outra vela estava acesa, mesmo com receio de encarar o ambiente em que havia traços do casal e da mãe do rapaz encarregado que ali permaneceram algumas semanas. Foi outra história conseguir organizar os cabos da tranca nos buracos da porta, pois a sequencia de eventos fica embaralhada. Cada detalhe pode nos absorver em excesso e deixamos outros perigos de lado A questão do botijão a gás dentro de casa foi outro detalhe que me absorveu, tudo em meio a emanações provindas do botijão e do potencial de risco do gás. Sobre a pia de cozinha um odor podre intensificava, então percebi mosquitos saindo pela abertura da tampa da panela de pressão ali deixada pelo rapaz (havia percebido ao chegar mas achava puerilmente que o rapaz sabia o que estava fazendo, rs). Quando abri a panela, o odor de feijão estragado me atacou de cheio as narinas! Tive de levar correndo pra fora e despejar o conteúdo e a panela longe! Fiquei entre nauseado e divertido em não ter percebido em consciência normal que o odor ruim que sentira ao entrar dentro de casa era provindo da panela de pressão!! Me pareceu que de um modo estranho e mágico, Jurema havia me preparado uma peça com a panela de feijão e com a visita inesperada do vizinho! Chegando a conclusão que o risco era mínimo quanto ao gás, decidi tomar uma terceira dose, mas a náusea continuava e não fui além de metade da dose, pois o nervo ciático frio me obrigou a ir ao quarto e tentar relaxar debaixo das cobertas. Fiquei ali entre dormindo e acordado, tentando me adaptar a sonolência, e estranhamente não conseguia ouvir os ruídos habituais do brejo que sempre entram pela janela nas noites. Surgiram imagens libidinais com o casal, mas a insistência foi a de uma imensa gruta vaginal extensiva e tímida ao mesmo tempo. Quando consegui depois de várias tentativas me adentrar em meu brejo interior, percorria galerias úmidas dentro de mim, pareciam realmente uma colmeia de vasos vivos, de repente estava também dentro do canal vaginal desta imensa Yoni que surgira na miração, e que parecia bastante simpática comigo. Ouvia um imenso caudal de ruídos alucinatórios, até que sentindo necessidade de me aliviar, levantei-me e andei pelo terreno avaliando a colocação da cerca de alambrado e a colocação do portão. Me surpreendi que Jurema me auxiliasse a imaginar e raciocinar sobre a questão, coisa que normalmente teria dificuldade de coordenar e separar em meio a tantas outras questões! Ao voltar pra cama, me surpreendi sonhando com meu avô paterno moribundo e inchado ´como uma bolacha´, segundo descrição de meu primo no sonho... essa imagem de meu avô moribundo e inchado me era uma advertência de uma possibilidade de desenlace triste caso eu estacionasse na existência igualmente.
II
Domingo de flores e Sol com Jurema em meio a nuvens e Rastros Quìmicos
Decidi ao amanhecer de domingo voltar a tomar Jurema novamente pra observar se seria uma nova sessão ou repetição do mesmo. Me alimentei e fui trabalhar no brejo, tanques e na terra. Então voltei e bebi um resto de arruda síria e masquei suas sementes amargas, depois tomei um primeiro dedo aos goles de Jurema. Vira nos céu os malditos rastros químicos da Geoengenharia Climática e o céu carregado de expansões químicas, o Sol que surgia era forte e contaminado. Tive de carregar no protetor solar. Aos poucos gradualmente o princípio ativo DMT de Jurema fez efeito, de início uma sensação de andar sobre nuvens, depois náuseas e turvação da visão, a onda veio menos evidente, o tempo foi ficando paralisado no agora, cada momento era único e desligado da corrente de tempo das ações pregressas, acho que como certamente assim o fomos na primeira infância do eterno aqui-agora. Fica-me mais nítido que a realidade consensual diária é outro estado de alteração de percepção, apenas milimetricamente medida e classificada pela Cultura, seja popular, seja doutrinada, seja científica. O mato então roçado começa a fervilhar debaixo do Sol, as flores silvestres brilham em sua beleza de encanto singelo e rutilante. Caminho então com dificuldade me equilibrando como podia, já que o efeito da DMT nos torna feito ébrios, com dificuldade de conciliar equilíbrio de estar-no-mundo que áreas como o cerebelo nos proporciona. Dei volta no terreno cercado com prolongadas pausas onde a imaginação tomava impulso relacionando o que via com as possibilidades de transformação. Uma série quântica de eventos se estabelecia fugazmente diante do painel da mente. Até que o Sol mais forte e o sono me instruiu buscar a sombra. Tomei uma segunda medida por etapas de goles, e os bocejos eram ´recolhidos´ na caneca como um ato ritual de conservação de energia da Jurema, inclusive o próprio ODOR do Vegetal me levava a sensação de náuseas e aprofundamento da miração. Decidi ficar perto da vela acesa no cômodo do fogão a lenha, e acendi uma segunda vela de companhia. Fico sentado e os pés sem calçados, de novo apoiados apenas pelas achas de lenha. Então focando meu centro DAN-TIEN, me surgiam mirações caleidoscópicas centradas pela imagem de alguma divindade energética, pra mim representando e mesmo projetando chakras-vórtices de energia, ou talvez a própria imagem da molécula de DMT em ação nos centros do cérebro e da PINEAL em ativação. Ainda não cheguei ao conhecimento de entrar nestes vórtices iluminados, pois permaneço ainda fora da imagem, mas sinto que ela me envia ativação e conhecimento. No centro abaixo do umbigo a força ascendia e descia, circulava em movimento me mergulhando em transe de imagens e ausência de Eu. Me recordei das flores da douradinha-do-campo que havia recolhido nas voltas, e espalhei-as pelo meu peito e centro abaixo do umbigo, e sentia irradiação luminosa intensa dessas flores de suave perfume sóbrio. Firmei as costas e os pés, o chapéu branco sobre a cabeça, e foi como se Jurema me enviasse a vestimenta de uma imagem da umbanda no momento. Entendi que cada chapeu teria um significado e protegia dirigindo o sentido da sessão do excesso de emanações captadas, moldando por assim dizer o significado das emanações indefinidas. Então via o chapéu de matuto como uma cobertura de sentido dentro do contexto do sítio e da natureza que somos participantes e UM.
Decidi então ir me deitar, ficando com o vidro e a caneca de Jurema, cujo odor manteria a estimulação dos centros do cérebro, e deixei o chapéu vermelho sobre a testa e parte dos olhos. Espalhei alguns cravos da índia pelo períneo e abdome. Entrei em hiato da atividade da atenção, mas mantive contato com o corpo, queria descanso e manter o conhecimento ativo mesmo na inconsciência normal. O sonho do Avô-Moribundo me reaparecia na memória. Uma imagem que veio seguidamente entre os estágios das ondas de Jurema é a imagem de asas da borboleta monarca que aparece um 8 no lado interno das asas. Isso é novidade para mim, e vinha surgindo desde ontem mas não lhe dei devida atenção. Aos poucos consegui me levantar e acionei pontos de acupuntura localizados na barriga das pernas e levantei com o chapéu de palha de matuto. Caminhei lá fora e me veio a imagem de Myriam de Mágdala como a luz-ponte intermediária de Iéshoua-Cristo na Terra e em meio aos que a amavam. Myriam-Jurema se tornam UM na perspectiva de quem conhece as duas forças, e inclusive porque Jurema é considerada o sangue de Cristo. Foi lá fora, entre os tanques que vi a maravilha da borboleta com o 8 na parte interna das asas, com seus tons vermelhos e azuis fosforescentes! Tão pequena quanto maravilhosa, tal como as fantásticas flores silvestres! Encantos que ativam por demais os poderes de Jurema!
Voltei ao cômodo e preparei o peixe, arroz integral e salada amarga pro almoço de gratidão e reconhecimento. Depois voltei a me deitar e relaxar profundamente, e fui então trabalhar e circular no sítio onde tive novas imagens de inspiração pra seguir adiante. Ao decidir retornar pra cidade, dando uma organizada na casa e quarto, é que deparei-me com as roupas íntimas de certa mulher que aqui estivera, e isso me levou a excitação da libido tântrica. Foi então que recordei da imagem que me surgiu e dentro da qual me movimentei durante a noite enquanto estava na cama! Imagem que eu já havia esquecido!
No mundo dos monopólios da vida-mercadoria, cada qual é chamado a nadar pra libertação, ou perecer nas garras do leviatã sem choro nem vela...fazer de sua vida um espelho da espiral da existência e fazer valer a pena ter nascido...ssss. Resta-nos mover pela realidade diária como uma realidade moldada pela força da convenção e do arbítrio, e preservar um tanto de liberdade de percepção e criatividade que alcançamos na percepção alterada pela DMT-Jurema.






Nenhum comentário:
Postar um comentário