sábado, 19 de janeiro de 2013

A Verdade e a Aparência, redimencionando Cristo no holismo tântrico.

Cristo fonte de água da vida:arteDinarte
        Hoje estava assistindo o Dvd AUGUSTINE A Queda Do Império Romano, um longa metragem histórico com Franco Nero, a luta de um homem entre dois mundos, a da aparência e da verdade, e ao sairmos para espairar ao anoitecer, deu de trocar idéias com mulher e companheira. Dizia a ela que a vida do ser humano trafega num conflito entre a verdade e aparência, e cujos atores desse drama variavam conforme a época, e alguns desde criança são guiados pela senda desse conflito, entre sobreviver de acordo com a descoberta da verdade,  e a de viver de acordo com o mundo e seus interesses, e dos poderosos do momento. O homem vive mais intensamente esse conflito, a mulher é mais adaptável por força da cultura e desperta mais tarde, embora nesse caso tem mais influência a classe social, pois mulheres de famílias abastadas são educadas a comandar desde a infância. Entretanto o que subsiste submerso na consciência cotidiana é que homem e mulher são aspectos aparentemente diversos de um único ser incognoscível.  No filme referido a verdade era ditada pelo discurso e convencimento no palco do tribunal, até que o jovem  advogado em Cartagena se choca ao reconhecer que o convencimento não implica em justiça e verdade, que o cliente pode ser culpado e ser absorvido. O seu professor não se importa com essa questão, lhe importa o resultado e o interesse do cliente. Era a época romana, um império ameaçado por dentro e por fora, o cristianismo atraindo fiéis pela tolerância de Constantino, com predomínio do cínico paganismo e seitas esotéricas(como a de Mani, os maniqueistas) para associar os emergentes e em crise de valores. Na aparência do mundo o que contava era status, posse e poder, e tudo se concentrava em avidez sexual para diversão da consciência, as disputas se resolviam em lutas variadas, convencimento e adesão, ameaças, perseguição e por fim violência e assassinatos. O cristianismo primitivo trouxe em primeiro plano a verdade da consciência, e no epicentro dessa verdade uma referência transcendental que faltava aos filósofos e pensadores da ética. Enquanto esses se colocavam no mesmo plano humano com seus leitores e ouvintes, Jesus era o Cristo atemporal de ontem e sempre, onde cada um era valorizado em si e na comunidade, ao contrário do mundo pragmático pagão e dos filósofos a quem faltava a esperança da transcendência. A morte era um fato insofismável, restava a aparência cultivada em vida, no máximo o nome ao longo dos séculos, como um Sócrates que preferiu a morte gloriosa ao lento agonizar da velhice avançada. Mas o Cristianismo como fenômeno histórico conseguiu eclipsar a barreira-limite da morte e deu combustível para enfrentar os tiranos e a sociedade romana. Mas a morte continua ao longo dos séculos sendo o que ela é, a entrega final, e toda possibilidade ainda é fruto da mente e da energia ainda viva, mesmo que em suspensão comatosa. O Morto continua presente e perturbado em nossa consciência pessoal e coletiva, ou inconsciência coletiva pelo geral. Por isso os rituais na despedida final, não somos simples animais. Entretanto talvez Jesus não tivesse interesse especial numa teoria de existência após a morte. Na oração do Pai-Nosso não há referência alguma à morte, apenas ao mal. Se ele falava da morte era em parábolas para mover e incentivar os seus ouvintes a aderirem ao caminho em que ele era a porta e a realização. Aquela advertência:" Deixe que os mortos enterrem seus mortos, você venha e me siga.", semelhante a "Renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga" e "O Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça",  nos revela um Jesus peregrino na ponte do mundo, em que a verdade é a plenitude humana em seu amor, e a comunhão das pessoas entre si através desse Coração-Mente, um A-Caminho para além do mundo e do ego pessoal e coletivo. Em Marcha! - diz a tradução de André Chouraqui à introdução do Sermão da Montanha, em vez do beatífico e confortante 'Bem-aventurados'. Entretanto, diante da instituição do poder romano surgiu a instituição do poder católico, e diante da pressão dentro de suas próprias paredes, a Reforma. O cristianismo se mundanizou, e o Concilio de Nicéia dogmatizou a esclerose do Cristianismo, de uma religião revolucionária para uma religião conivente com o Estado e o Poder Instituído. Segundo Erich Fromm, em O Dogma de Cristo, o Cristianismo, que fora a religião de uma comunidade de irmãos iguais, sem hierarquia ou burocracia, tornou-se "A Igreja", um reflexo da imagem da monarquia absoluta do Império Romano. 
         Não se sabe o que Jesus/Yeshua falava a respeito do sexo, se é que falava pois ele ansiava a redenção espiritual e libertação das garras da 'legião', que tanto pode ser a força anímica alienígena como as garras da àguia romana. Em Mateus está referido que era melhor se tornar um "eunuco" e servir o reino de Deus, do que cair nas contradições e armadilhas dos relacionamentos do casamento, da lei e do sexo:"Nem todos compreendem esta palavra, mas somente aqueles que é dado compreender. Sim, há eunucos que do ventre de sua mãe nasceram assim. Há eunucos que foram feitos assim pelos homens. E ha eunucos que se fizeram assim eles mesmos eunucos por causa do reino dos céus. Quem pode penetrá-lo, que que o aceite!". A respeito dessa passagem que me queimou a cabeça e levantou resistência muito tempo na adolescência, Chouraqui interpretando o novo testamento a partir do hebraico e do aramaico com o povo que Jesus falava, refere que ao por o celibato acima do casamento e a virgindade ou a continência acima da vida conjugal, Iéshoua(Ieshua)-Jesus se situa na linha direta dos ensinamentos essênios. Entretanto,por outro lado, esse estudioso delira e exagera vendo Jesus trajando uma veste ornamental judaica com suas franjas atadas nas quatro pontas...Foi assim que os padres viram Jesus nas suas vestes cerimoniais do Vaticano. Sabe-se que nos anos ocultos Jesus-Ieshua viajou pelo mundo conhecido e oriente , e trouxe uma sabedoria para além da tradição e do credo essênio, por isso ele se misturava ao povo nas estradas da Samaria, do litoral e em companhia de Mulheres, às quais dedicava especial atenção,em especial Maria Madalena, bem como às crianças, do que se apreende no episódio em que Jesus alertava Marta dos excessos de trabalhos em casa deixando de lado o 'único necessário' que sua irmã Maria buscava. Enfim, se o sexo e o apego prejudica a transformação da pessoa tornando-a inapta para se integrar ao 'reino do Céu' e agir neste sentido,  transformando suas relações no mundo, enfim uma práxis holística, é melhor renunciar ao sexo e seus vínculos. O que não significa instituir o celibato e reprimir a energia sexual como a Igreja postula, haja vista que também este dogma provoca inúmeras patologias e desvios, desde fanatismo assassino como a história demonstra na inquisição, pedofilia e demais escândalos. Infelizmente há quase ausente referência ao modo tântrico-taoista de relacionamento sexual e continência do espasmo ejaculatório, exceto por advertências de livros sapientes da Bíblia quanto ao perigo de se entregar ao abuso com mulheres. Ainda estávamos sob a lei do: Crescei e reproduzi-vos!, o enfoque dos Elohims dos Hebreus,Iahveh( ou o impronunciável consonantismo IHVH, como refere Chouraqui, termo vindo de hava,"aquele que sempre foi e será e se revela", ou hawa, do árabe, o ar que sopra e lança raios, tonitruante, sendo elohims no plural, deuses, talvez o plural de El, o poderoso ancião dos dias). 
          Entretanto se Ieshua-Jesus vê e emite logos de acordo com a tradição do Torá, mas também os recria a cada passo na sua peregrinação pela ponte do mundo,  não age de maneira predeterminada como um simples doutor da lei, mas se modifica na fluidez do contexto e do coração em seu amor ao Incognoscível IHVH, o elohims demiurgo fundador de civilizações, seu sangue e ressurreição ecoa pelos séculos há dois milênios, tão fecunda e rica sua manifestação na mente e no coração da humanidade. alterando a face bárbara e pagã dos séculos anteriores, esta face que continua dando contribuição para as turbulências do presente. Assim temos que na atual contingência globalista da produção e, na esteira  da cultura e suas repercussões sobre as mazelas do meio-ambiente, a extinção e contaminação em massa da biodiversidade, já vai tarde talvez demais uma releitura tântrica do eunuquismo referido por Jesus aos fariseus e seu próprio circulo de discípulos. Haja visto que a contenção tântrico-taoista do espasmo no homem e do instinto fecundante na mulher pelo esperma, sublimando-os e transmutando-os em síntese energético-anímico-transimanente, ao invés de fusão ego-afetivo-genital, fusão esta sempre sujeito a declínios e rupturas dramáticas que tanta literatura, poesia, patologia e tribunais provocou. Muito logicamente este processo holístico escandaliza e ameaça àqueles e aquelas que tomam a bíblia ao pé da letra ou segundo padrões teológicos que propõe a igreja e seus dogmas como referência. Existem cérebros carunchados de fanáticos que vomitariam turbilhões de palavras ameaçadoras e de ondas de ódio a esta busca holística nos evangelhos canônicos, apócrifos e a toda ampliação contemporânea da mensagem cristã, ou melhor, Crística. Daí o termo UNOTANTRA CRÍSTICO  escolhido para este blog.
          Por último, retornando ao filme e à conversão de AUGUSTINE ao cristianismo, foram FATOS, não palavras que decidiram a ruptura de Augustine com a aparência da sociedade pagã e imperial. Palavras quando muito são preâmbulo dos fatos, alerta-nos para fatos que estamos inconscientes ou que ainda se sucederão no processo. Mesmo quando palavras parecem que transformam alguém, são fatos que vinham nos incomodando e que as palavras revelaram. È o caso de um homem despertar para a necessidade da virada tântrica e renunciar ao deleite imediato da posse ou do gozo natural, esse  condicionamento tanto cultural quanto genético-hormonal. Foi o caso da conversão de AUGUSTINE ao cristianismo, quando um homem desperta para a inautenticidade de sua vida e fragilidade de sua existência, trafega no fio da navalha e flerta com a aparência imposta, inclusive com atos degradantes e crimes ocultados. Na cultura em geral buscam transformar palavras em fatos, como prestidigitadores políticos e advogados.  Mas há muito caminho a ser desbravado no unotantra, pois ao ser humano cabe aprender tudo pela cultura viva da práxis do relacionamento integral, pois ao que nasce nem respirar nem chorar sabe espontaneamente, precisando ser estimulado no canal de parto ou por intervenção humana. 
        Enfim, dado à sua conversão e graças à sua eloquência comunicativa e assídua busca de sentido na existência, Augustine viu com seus próprios olhos a decadência e ruína do império romano e seu castelo inexpugnável, soube que escolhera o lado que sobreviveria à débacle do mundo até então dominante e viu no amor a força legítima que põe em movimento a roda da evolução integral humana: tudo o que pensar, falar, defender, agir, faça-o com amor, em especial, amor a Cristo, mas que na época o bispo e pensador de Cidade de Deus, o 'Santo Agostinho', era amor à Igreja e ao papa católico. Fico com a sensação que estamos assistindo a déblacle da dominação em nosso mundo e nossa época, e que o Cristo e o Tantra assistirão e sobreviverão à ruína do império  da aparência e do instinto que ainda comanda o mundo, a dualidade que ata e divide a consciência humana. Enfim Augustine, A Queda do Império Romano, não é um filme cult-arte, mas informa, faz pensar e esclarece, além de belo e sensível. 









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