| cristo do mangue,arte:Dinarte |
Depois desta introdução, é preciso reafirmar que a salvação em Cristo não é meramente de um aspecto metafísico da alma e de uma 'existência após a morte ou no fim dos tempos' como vivem repetindo os padres e similares religiosos. Isto não convence os mais jovens e abertos ao devir, apenas afasta-os de Cristo(embora muitos estejam fanatizados na educação familiar). Acho que desde bem cedo, ainda menino, eu lia as palavras do evangelho como uma esperança para AQUI-AGORA, na totalidade do ser que sou e posso vir-a-ser. Enfim, uma salvação em sentido holístico na existência entre o nascer e o morrer, e a morte como uma ruptura e transcendência-passagem a cada ciclo e fase que a existência nos traz e que provocamos com nossa busca-movimento, um fluxo espiral e holístico que a energia-consciência nos impele. Isto é: quanto mais energia em quantidade e qualidade sou capaz de ativar e por em movimento, mais amplio os limites da salvação e a presença arquetípica de Cristo, uma integração com o inteiro, como se auto-denomina Jesus no ev. de Tomé, e assim surge uma alquimia do ego-mundo e do ser em mim. Enfim, a passagem morte-renascimento dos antigos, onde o ritual é a própria práxis dialética em conflito com o tempo, meus limites e a mentalidade dominante, e morte-ressurreição de Cristo em mim para além do ego. E a evidência de que nossa energia transacional fundamental é a libido e não propriamente a alimentação, energia ATP de reações orgânicas e tal, temos que também a força vital dos antigos está vinculada à energia sexual, especialmente se tal energia estiver vitalizada, não por obra de compulsão sexual ou atração romântica, mas por relacionamentos tântricos, e além disso, tendo um sentido para além da dualidade que o par ou o grupo envolvido comporta, que os limites dos sentidos condiciona à mente e a Cultura determina. Aqui novamente o círculo holístico onde o começo reencontra o fim, o alfa e ômega, o Tao, na ênfase de Cristo como esta dimensionalidade transimanente, isto é, que perpassa e transpõe a imanência do cosmos e da mente, do ego-mundo-cultura. Então fica claro o sentido da palavra tantra, ou seja, rede, uma rede de correlações inextrincável.
Eis que precisamos resgatar ou desvelar o par Jesus-Madalena que a antiga tradição tentou preservar, suas nuances sutis que a tradição judaica bastante patriarcal e a católico-romana bastante misógina e depois celibatária tentou encobrir identificando Miryam de Mágdala com a prostituta arrependida e outras Marias anônimas citadas nos evangelhos. E mesmo que fosse, mais maravilhoso aos nossos olhos deveria ser sua transformação por amor a Cristo. Ora, os próprios evangelhos sinódicos e canônicos enfatizam a importância de Maria Madalena na reafirmação da Ressurreição de Cristo e seu testemunho num momento de medo e dúvida crucial a respeito do destino do movimento cristão primitivo. Este destaque foi enfatizado no ev. apócrifo de Maria, onde Miryam de Mágdala nos diz: "Ele nos convida a ser plenamente Humanos", termo que vem do grego copta anthropos, traduzido pelo pensador holístico Jean-Yves Leloup, 2006,Vozes. Esta plenitude implica numa auto-descoberta de nossa totalidade em fluxo, uma cartografia da totalidade cujas fronteiras estão em Cristo, e que perpassa a sexualidade,em especial a vitalizada em sentido tântrico, e reducionalmente a sexualidade normal e decaída, atada ao instinto da natureza, aos impulsos da programação genética e hormonal. Não cabe aqui nenhum sentido pejorativo ou repressor à sexualidade, como pode supor certas cabeças apressadas ou contrariadas com a perspectiva tântrica. Afinal, esta abordagem está longe de ser pública, em tese para todos e para ninguém, como dizia Nietzsche quanto a pensamentos que frutificarão após gerações. Mas há uma abordagem transpessoal e holística em curso dentro de nossa cultura que prepara a perspectiva tântrica e holocentrada em Cristo, portanto, Crística, superando as barreiras culturais e religiosas como o ovo que, no seu tempo, dá à luz o filhote de ave. Aliás, uma magnífica imagem simbólica de Cristo, herdada dos antigos povos, o ovo da ressurreição fecundado pelo Espírito Sagrado, do túmulo e do silêncio da morte o ovo torna-se emblema direto do corpo de Cristo ressuscitado, o germe-fagulha da alquimia holocentrada e do mundo-novo, nova-esperança a partir desta pessoa centrada no amor-mente de Cristo. No lugar do filhote de ave, no ovo-ressurreição de Cristo há a imagem do cordeiro pascal que foi sacrificado pela redenção de muitos.
Esta abordagem prepara para adiante em outro link um aprofundamento da dimensão feminina e andrógina na mensagem de Cristo e no âmago da cultura, fundamental para o relacionamento tântrico, haja visto que a dualidade prevalente causa ansiedade e dispara o instinto natural e hormonal que rege a sexualidade normótica dominante.
Disse Jesus:
Eu vos escolherei um dentre mil
e dois entre dez mil,
e eles erguer-se-ão como se fossem um só, simples.
(aforismo 23 do ev. Tomé).
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