terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Tantra crístico, por que não 'cristão'?-Miryan de Mágdala, a assunção feminina em Cristo

cristo do mangue,arte:Dinarte
   Tem muita gente que torce o nariz ao termo 'crístico', mas é apenas uma palavra que tenta separar o assunto de juízos religiosos. Todos temos direito à iluminação, como afirmavam o movimento shrâmico(praticantes) do hinduismo, como referi no link-resumo passado, independente de quem somos ou o que fazemos no mundo. Autoridade nenhuma pode nos condicionar mental ou afetivamente, a menos que nos acostumemos ou permitamos.Nosso caminho pessoal é singular em primeiro plano, e diz respeito a nossa inteireza e destino, e plural-coletivo a seguir. E Cristo não é propriedade de religião ou autoridade, apesar de pouco passar de um ícone na mentalidade religiosa comum e institucional. O termo 'cristão' é tradicional e tem reverberações dogmáticas, coisa que não combina com aqueles que buscam se mover o melhor que podem no fluxo do tao, na espiral holocentrada da existência plena(ou pelo menos naquela que somos capazes e temos energia para intentar e percorrer). A igreja já teve poder de dar 'caça às bruxas' e interpretações variantes do fenômeno de Cristo,tidascomo heréticas e isoladas em 'evangelhos apócrifos'(isto é,' ocultos') e outros escritos. Ora, no aforismo 42 do ev. de Tomé, diz-nos Jesus: Sede Passantes..., sabedoria ancestral que já Heráclito de Èfeso anunciava em seus fragmentos onde tudo é fluxo e transformação, e o cosmos um fogo sempre vivo, em que pese tudo ser UM para aquele que 'ouve' o logos, o princípio unificador para além da vida e da morte. È apartir deste plano que a mensagem de 'vida eterna', Zoé, divulgada por Jesus-Yeshua, pode ser interpretada na contemporaneidade: um sentido de 'vida plena' como está no ev. de João, na plenitude do amor tal como ele nos amou. Mas uma cabeça conformada e conservadora vai enfatizar as passagens que reforcem sua mentalidade, e  cada um interpreta os evangelhos conforme seu background, sua mentalidade e formação.Talvez estas mesmas tenham sido ali impostas ao longo dos séculos para dar autoridade ao comando das igrejas e ao sistema cultural de hierarquia no tempo, tal como aquela passagem de 'entregar as chaves do reino' ao Simão Pedro, adotado como chefe espiritual da igreja católico-romana. O PhD em teologia, Dr. Bart D. Ehrman, encontrou tantas passagens duvidosas e adulteradas ao longo das reproduções pelos copistas da Igreja que chega mesmo a duvidar da existência histórica de Jesus. Entretanto, para além da historicidade de Jesus, Cristo é uma necessidade emergente de nosso eu central, o Self atemporal e holocentrado, um arquétipo do self, como apontava Dr. Jung. Inclusive Cristo é uma presença que se desvela ao longo das eras e se modifica conforme a humanidade amplia sua consciência. Hoje em dia uma recente dimensão cósmica e trans-terrestre de Cristo está sendo debatida, e para a qual o Sudário de Turim também contribui com seu enigma. 
       Depois desta introdução, é preciso reafirmar que a salvação em Cristo não é meramente de um aspecto metafísico da alma e de uma 'existência após a morte ou no fim dos tempos' como vivem repetindo os padres e similares religiosos. Isto não convence os mais jovens e abertos ao devir, apenas afasta-os de Cristo(embora muitos estejam fanatizados na educação familiar). Acho que desde bem cedo, ainda menino, eu lia as palavras do evangelho como uma esperança para AQUI-AGORA, na totalidade do ser que sou e posso vir-a-ser. Enfim, uma salvação em sentido holístico na existência entre o nascer e o morrer, e a morte como uma ruptura e transcendência-passagem a cada ciclo e fase que  a existência nos traz e que provocamos com nossa busca-movimento, um fluxo espiral e holístico que a energia-consciência nos impele. Isto é: quanto mais energia em quantidade e qualidade sou capaz de ativar e por em movimento, mais amplio os limites da salvação e a presença arquetípica de Cristo, uma integração com o inteiro, como se auto-denomina Jesus no ev. de Tomé, e assim surge uma alquimia do ego-mundo e do ser em mim. Enfim, a passagem morte-renascimento dos antigos, onde o ritual é a própria práxis dialética em conflito com o tempo, meus limites e a mentalidade dominante, e morte-ressurreição de Cristo em mim para além do ego. E a evidência de que nossa energia transacional fundamental é a libido e não propriamente a alimentação, energia ATP de reações orgânicas e tal, temos que também a força vital dos antigos está vinculada à energia sexual, especialmente se tal energia estiver vitalizada, não por obra de compulsão sexual ou atração romântica, mas por relacionamentos tântricos, e além disso, tendo um sentido para além da dualidade que o par ou o grupo envolvido comporta, que os limites dos sentidos condiciona à mente e a Cultura  determina. Aqui novamente o círculo holístico onde o começo reencontra o fim, o alfa e ômega, o Tao, na ênfase de Cristo como esta dimensionalidade transimanente, isto é, que perpassa e transpõe a imanência do cosmos e da mente, do ego-mundo-cultura. Então fica claro o sentido da palavra tantra, ou seja, rede, uma rede de correlações inextrincável.
         Eis que precisamos resgatar ou desvelar o par Jesus-Madalena que a antiga tradição tentou preservar, suas nuances sutis que a tradição judaica bastante patriarcal e a católico-romana bastante misógina e depois celibatária tentou encobrir identificando Miryam de Mágdala com a prostituta arrependida e outras Marias anônimas citadas nos evangelhos. E mesmo que fosse, mais maravilhoso aos nossos olhos deveria ser sua transformação por amor a Cristo. Ora, os próprios evangelhos sinódicos e canônicos enfatizam a importância de Maria Madalena na reafirmação da Ressurreição de Cristo e seu testemunho num momento de medo e dúvida crucial a respeito do destino do movimento cristão primitivo. Este destaque foi enfatizado no ev. apócrifo de Maria, onde Miryam de Mágdala nos diz: "Ele nos convida a ser plenamente Humanos", termo que vem do grego copta anthropos, traduzido pelo pensador holístico Jean-Yves Leloup, 2006,Vozes.  Esta plenitude implica numa auto-descoberta de nossa totalidade em fluxo, uma cartografia da totalidade cujas fronteiras estão em Cristo, e que perpassa a sexualidade,em especial a vitalizada em sentido tântrico, e reducionalmente a sexualidade normal e decaída, atada ao instinto da natureza, aos impulsos da programação genética e hormonal. Não cabe aqui nenhum sentido pejorativo ou repressor à sexualidade, como pode supor certas cabeças apressadas ou contrariadas com a perspectiva tântrica. Afinal, esta abordagem está longe de ser pública, em tese para todos e para ninguém, como dizia Nietzsche quanto a pensamentos que frutificarão após gerações. Mas há uma abordagem transpessoal e holística em curso dentro de nossa cultura que prepara a perspectiva tântrica e holocentrada em Cristo, portanto, Crística, superando as barreiras culturais e religiosas como o ovo que, no seu tempo, dá à luz o filhote de ave. Aliás, uma magnífica imagem simbólica de Cristo, herdada dos antigos povos, o ovo da ressurreição fecundado pelo Espírito Sagrado, do túmulo e do silêncio da morte o ovo torna-se emblema direto do corpo de Cristo ressuscitado, o germe-fagulha da alquimia holocentrada e do mundo-novo, nova-esperança a partir desta pessoa centrada no amor-mente de Cristo. No lugar do filhote de ave, no ovo-ressurreição de Cristo há a imagem do cordeiro pascal que foi sacrificado pela redenção de muitos. 
         Esta abordagem prepara para adiante em outro link um aprofundamento da dimensão feminina e andrógina na mensagem de Cristo e no âmago da cultura, fundamental para o relacionamento tântrico, haja visto que a dualidade prevalente causa ansiedade e dispara o instinto natural e hormonal que rege a sexualidade normótica dominante. 
                              Disse Jesus:
                              Eu vos escolherei um dentre mil
                               e dois entre dez mil, 
                               e eles erguer-se-ão como se fossem um só, simples.
                              (aforismo 23 do ev. Tomé).

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